Archive for March, 2013

Deus

Sunday, March 17th, 2013

Dizem-me:
“O senhor não tem o direito de falar de Deus segundo a forma que o faz. O senhor não nos
apresenta senão um Deus caricaturado, sistematicamente reduzido a proporções que seu cérebro abarca.
Esse Deus não é nosso Deus. O nosso Deus não o pode o senhor concebê-lo, visto que lhe é superior,
escapando por isso à suas faculdades intelectuais. Fique sabendo que o que é fabuloso, gigantesco para o
homem mais forte e mais inteligente, é para Deus um simples jogo de crianças. Não se esqueça que a
Humanidade não pode mover-se no mesmo plano que a Divindade. Não perca de vista que é tão
impossível ao homem compreender a maneira como Deus procede, como os minerais imaginar como
vivem os vegetais, como os vegetais conceber o desenvolvimento dos animais, e como os animais saber
como vivem e operam os homens.
Deus paira a umas alturas que o senhor é incapaz de atingir ocupa montanhas inacessíveis ao
senhor. Qualquer que seja o grau de desenvolvimento de uma inteligência humana; por muito importante
que seja o esforço realizado por essa inteligência; seja qual for a persistência deste esforço, jamais
poderá elevar-se até Deus. Lembre-se, enfim, que, por muito vasto que seja o cérebro do homem, ele é
finito, não podendo, por conseqüência, conceber Deus, que é infinito.
Tenha pois a lealdade e a modéstia de confessar que não lhe é possível compreender nem
explicar, não o cabe o direito de negar”.
Eu respondo aos deístas:
Dais-me conselhos de humildade que estou disposto a aceitar. Fazeis me lembrar que sou um
simples mortal, o que legitimamente reconheço e não procuro olvidar-me.
Dizeis-me que Deus me ultrapassa e que o desconheço. Seja. Consinto em reconhecê-lo; afirmo
mesmo que o finito não pode compreender o infinito, porque é uma verdade tão certa e tão evidente, que
não está em meu ânimo fazer-lhe qualquer oposição. Vede, pois, até aqui estamos de acordo, com o que
espero, ficareis muito contentes.
Somente, senhores deístas, permiti que, por meu turno, eu vos dê os mesmos conselhos de
humildade, para terdes o franqueza de me responder estas perguntas: Vós não sois homens como a mim?
A vós, Deus não se depara como para a mim? Esse Deus não vos escapa como a mim? Tereis vós a
pretensão de moverdes no mesmo plano da divindade? Tereis igualmente a mania de pensar e a loucura
de crer que, de um vôo, podereis chegar às alturas que Deus ocupa? Sereis presunçosos ao extremo de
afirmar que o vosso cérebro, o vosso pensamento que é finito, possa compreender o infinito?
Não vos faço a injuria, senhores deístas, de acreditar que sustentais uma extravagância venal.
Assim, pois, tende a modéstia e a lealdade de confessar que, se me é impossível compreender e explicar
Deus, vós tropeçais no mesmo obstáculo. Tende, enfim, a probidade de reconhecer que, se eu não posso
conceber nem explicar Deus, não o podendo, portanto, negar, a vós, como a mim, não vos é permitido
concebê-lo e não tendes, por conseqüência, o direito de afirmá-lo.
Não julgueis, no entanto, que, por causa disto, ficamos na mesma situação que antes. Foste vós
que, primeiramente, afirmastes a existência de Deus; deveis, pois, ser os primeiros a pôr de parte vossas
afirmações. Sonharia eu, alguma vez, com negar a existência de Deus, se vós não tivésseis começado a
afirmá-la? E se, quando eu era criança, não me tivessem imposto a necessidade de acreditar nele? E se,
quando adulto, não tivesse ouvido afirmações nesse sentido? E se, quando homem, os meus olhos não
tivessem constantemente contemplado os templos elevados a esse Deus? Foram as vossas afirmações
que provocaram as minhas negações.
Cessai de afirmar que eu cessarei de negar.
Sebastien Faure
Extraído de ateus.net